
Chegar
ao espaço é uma meta que será cumprida em um
futuro próximo. Mas o Programa Espacial Brasileiro vai muito
além disso
Carlos
Ganem, economista, advogado e administrador de empresas, é
presidente da Agência Espacial Brasileira. Artigo publicado
na “Folha de SP”:
Um
programa espacial é muito mais do que fazer e lançar
foguetes, satélites e veículos espaciais. É
mais do que uma área física, onde se instalam radares,
equipamentos de telemetria, meteorologia e torres de lançamento.
É um objetivo que congrega os sonhos de conhecimento e domínio
do espaço que está presente desde os primórdios
da humanidade na sua atitude diante do universo.
Essa
meta não é fácil de alcançar. A atividade
espacial é complexa, exige planejamento, longo prazo de maturação
e, ainda assim, é de alto risco.
Grandes
conquistas foram alcançadas por meio da atividade espacial.
Atualmente, diminuímos as distâncias por meio das telecomunicações,
que levam informação, saúde e educação
a lugares de difícil acesso. Mapeamos com precisão
o planeta, fazemos previsões meteorológicas cada vez
mais acuradas...
Mas
esse desenvolvimento cobra um preço. Não é
por acaso que, com pouquíssimas exceções, praticamente
todos os programas espaciais do mundo exibem um longo histórico
de tristes ocorrências. E, no Brasil, esse desenvolvimento
não foi diferente.
A
última sexta-feira foi um dia triste para o Programa Espacial
Brasileiro, em que lembramos dos 21 técnicos que há
cinco anos perderam suas vidas no acidente ocorrido em Alcântara
(MA), acreditando no sonho de garantir ao Brasil o acesso ao espaço.
Em
respeito à memória dos que se foram e sem desistir
de proporcionar ao país a soberania e os benefícios
advindos da tecnologia espacial é que precisamos continuar
esse projeto.
Chegar
ao espaço é uma meta que será cumprida em um
futuro próximo. Em 2010, deverá ser lançado
o primeiro protótipo de uma nova série de foguetes
que está sendo desenvolvida no Comando-Geral de Tecnologia
Aeroespacial (CTA), a do Veículo Lançador de Satélites
(VLS). Nesse mesmo ano, deverá ser lançado pela Alcântara
Cyclone Space (ACS), empresa binacional Brasil-Ucrânia, o
primeiro foguete, Cyclone-4, a partir de Alcântara, abrindo-nos
as portas para a exploração comercial das atividades
espaciais.
Mas
o Programa Espacial Brasileiro vai muito além disso. As atividades
espaciais que serão desenvolvidas em Alcântara serão
a base da criação de um pólo de desenvolvimento
socioambiental, cultural, turístico, econômico e tecnológico
que constituirá o Complexo Espacial de Alcântara (CEA).
Isso permitirá a inclusão cidadã da vila de
Alcântara e de toda a comunidade quilombola que vive em torno
do projeto.
A
plataforma multimissão, que está sendo desenvolvida
pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e pela indústria
nacional, será a base de diversos satélites que muito
contribuirão para o conhecimento e o monitoramento do nosso
território.
O
satélite Cbers, desenvolvido em parceria com a China, já
produziu 500 mil imagens de sensoriamento remoto que foram distribuídas
gratuitamente via internet.
Atualmente,
fabricamos foguetes de sondagem que estão entre os melhores
existentes e permitem a realização de pesquisas e
experimentos em ambientes de microgravidade por instituições
de pesquisa brasileiras.
O
AEB Escola, programa desenvolvido pela Agência Espacial Brasileira
há dez anos, leva a milhares de estudantes o conhecimento
e o estímulo para as atividades espaciais por meio de oficinas
e formação continuada de professores.
Do
mesmo modo, realiza, anualmente, a Olimpíada Brasileira de
Astronomia e Astronáutica, que tem como objetivo despertar
o interesse dos alunos do ensino médio e fundamental para
a temática espacial, em parceria com a Sociedade Astronômica
Brasileira.
É
a maior garantia de que, no futuro, teremos essa ação
de responsabilidade social, gerando mão-de-obra técnica
e científica aplicada ao segmento espacial.
Ter
um satélite geoestacionário brasileiro usado para
fins meteorológicos, de comunicação e de defesa
é um projeto que nos libertará de parte da dependência
externa. Hoje, todos esses serviços são fornecidos
por satélites estrangeiros.
O
Programa Espacial Brasileiro está vivo, operante e com ações
que o suportam e o estruturam. Sua afirmação estratégica
para o Estado brasileiro é reconhecida como prioritária
pelo presidente Lula. |