No
dia em em que a maior tragédia da história do programa
espacial brasileiro completa cinco anos, o governo federal chega
ao oitavo mês do ano sem ter executado nenhum investimento
em ações relativas à base de Alcântara
com recursos do Orçamento deste ano. Em 22 de agosto de 2003,
o incêndio do VLS-1 (Veículo Lançador de Satélites)
na base maranhense matou 21 pessoas.
Segundo
dados da execução orçamentária do Pnae
(Programa Nacional de Atividades Espaciais) deste ano, de um investimento
autorizado de R$ 62 milhões para sete ações,
a AEB (Agência Espacial Brasileira) e o Comando da Aeronáutica,
órgão responsável por uma parcela de 0,3% dos
investimentos previstos, ainda não desembolsaram nenhum centavo.
O
presidente da AEB, Carlos Ganem, há cinco meses no cargo,
disse à Folha que uma das razões para a baixa execução
orçamentária é o fato de "não ter
espaço para ser maior".
Segundo
ele, a questão pode ser vista como a relação
"entre o ovo e a galinha". "A baixa execução
pode estar ligada à inexistência de um mercado forte
para atividade espacial", disse.
O
Pnae nem chegou a ser incluído entre os 101 programas prioritários
do governo para 2008, segundo lista anexada à Lei de Diretrizes
Orçamentárias elaborada no ano passado e que serviu
de parâmetro para o Orçamento deste ano.
As
únicas ações do governo relativas a investimentos
em Alcântara no Orçamento deste ano foram referentes
a reservas de recursos - os chamados empenhos. Até o início
de agosto, R$ 20,1 milhões haviam sido reservados, mas ainda
estavam pendentes de execução.
Desse
dinheiro, R$ 20 milhões foram empenhados em julho, referente
a "Estudos para a implantação do Centro Espacial
de Alcântara". O valor, no entanto, permanece nos cofres
do governo federal.
Essa
ação não constava da lei orçamentária
anual e só foi criada no mês passado, juntamente com
a abertura de um crédito extraordinário de R$ 40 milhões.
A medida veio após contestações do TCU (Tribunal
de Contas da União).
A
equipe técnica do tribunal detectou, no ano passado, um sobrepreço
de R$ 122 milhões no edital de licitação para
as obras do Centro Espacial de Alcântara, inicialmente orçadas
em mais de R$ 600 milhões.
Em
março deste ano, apesar de os técnicos terem pedido
a anulação do edital, o TCU decidiu manter a concorrência,
sob a condição de a AEB reformular uma série
de pontos no edital. No entanto, no dia 6 de junho, a própria
agência espacial decidiu revogar a licitação
e reformular o projeto.
Até
a primeira quinzena de agosto, o R$ 1,4 milhão gasto pelo
governo em sete ações ligadas a Alcântara se
referiam a despesas correntes, como pagamento de diárias
e compra de material de consumo.
No
ano passado, os investimentos do governo em ações
ligadas ao desenvolvimento da estrutura de Alcântara chegaram
a R$ 39,3 milhões, segundo dados do Orçamento.
Apesar
do fraco desempenho até o momento na execução
orçamentária, a destinação de recursos
para o Programa Nacional de Atividades Espaciais subiu 480% desde
2003, ano da tragédia no centro de lançamentos no
Maranhão. O orçamento total autorizado para o Pnae
passou de R$ 35,9 milhões, há cinco anos, para R$
208,7 milhões neste ano.
Agência
admite baixa execução
Empossado
em março no comando da AEB (Agência Espacial Brasileira),
Carlos Ganem admite que a execução financeira dos
investimentos previstos no Programa Nacional de Atividades Espaciais
no orçamento deste ano é "baixa".
No entanto, citou pendências relativas à titularidade
de terras em Alcântara (MA) e um mercado fraco no setor espacial
no país como razões para a baixa execução
do orçamento este ano.
O
presidente da AEB também citou o fato de a renovação
da agência ter sido concluída no início de julho.
Ganem disse que a nova licitação para a construção
do Centro Espacial de Alcântara, anulada pela própria
AEB em junho deste ano e que vem sendo reformulada, será
realizada em setembro.
Já
a reconstrução da torre de lançamento do VLS
está prestes a ser retomada, segundo Ganem, com recursos
já reservados. A obra, interrompida pelo TCU, foi liberada
este ano pelo tribunal.
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