
Carlos
Albuquerque escreve para “O Globo”:
Na
ficção, Stan Lee criou a Tempestade, a integrante
dos X-Men com o poder de controlar raios e trovões. Na
realidade, a personagem vivida no cinema pela estrondosa Halle
Berry é totalmente dispensável, já que a
própria natureza se encarrega de criar fenômenos
como o dos super-raios. Essas pouco conhecidas descargas elétricas
de alta intensidade e grande poder de destruição
foram o tema de um estudo inédito no Brasil sobre a sua
ocorrência no Sudeste.
Conduzido
pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (Elat/Inpe), o trabalho, que buscou também
identificar as condições meteorológicas favoráveis
ao seu surgimento, vai ser apresentado no final do mês na
Conferência Internacional sobre Raios, em Tucson, nos Estados
Unidos.
*Os
super-raios são raros se comparados com os raios normais,
mas sua força é enorme, com alguns atingindo a intensidade
de mais de 500 mil ampêres, quando um raio normal tem, em
média, 40 mil ampêres — revela Osmar Pinto
Júnior, coordenador do Elat.
No
estudo, utilizando dados da rede brasileira de monitoramento de
raios — o Elat conta com mais de 50 sensores espalhados
pelo país, a terceira maior rede do planeta — descobriu-se
que ocorreram cerca de 500 super-raios no país em quase
dez anos.
*A
idéia principal do trabalho era saber onde eles ocorrem
com mais freqüência e se existem condições
propícias ao seu surgimento. São os primeiros passos
para que possamos, no futuro, entender melhor esse fenômeno
tão pouco estudado, e nos prevenir também, claro.
Poder
destrutivo que supera proteções
O
Sudeste foi escolhido por ser a região onde caem mais raios
no Brasil, que, por sua vez, é o país com a maior
incidência de descargas elétricas do mundo. Por aqui,
os raios causam prejuízos anuais de cerca de R$500 milhões,
além de deixar, em média, cem mortos e 500 feridos.
De acordo com um outro levantamento feito pelo Elat, foram registradas
46 mortes por raios em 2007 no Brasil.
*Em
relação às mortes, os superraios não
são nem tão críticos, já que num ser
humano todo raio causa um forte impacto — explica o pesquisador.
— Mas do ponto de vista de proteção, existe
uma diferença brutal.
De
acordo com Osmar Pinto Júnior, quase sempre os super-raios
superam as proteções existentes.
*Já
tivemos relatos de danos muito grandes em fábricas e prédios
cujos pára-raios não conseguiram suportar o impacto
desses super-raios. Mas em função da sua incidência
relativamente pequena, não caberia propormos rever as normas
de proteção para todo o país por conta de
uma quantidade reduzida desses raios. O que queríamos era
saber onde eles ocorrem para, aí sim, pensar em futuras
proteções.
O
trabalho revelou que a maioria dos super-raios, como era de se
esperar, acontece no estado que mais recebe descargas elétricas
no país: São Paulo.
*Mas
a novidade foi descobrir que eles não acontecem nas áreas
urbanas, Nenhum super-raio foi registrado na Grande São
Paulo — conta o coordenador do Elat. — Eles ocorrem
em sua maioria no interior, mais próximo a Campinas e daí
em direção ao oeste do estado.
Já
o Rio de Janeiro foi atingido por apenas sete raios nesse período,
sendo que quatro aconteceram, como em SP, no interior do estado.
*Apenas
dois foram registrados próximos à cidade do Rio
— diz Osmar Pinto Júnior.
Queimadas
podem causar o fenômeno
O
estudo do Elat/Inpe mostrou que tais fenômenos não
ocorrem aleatoriamente e sim em associação com as
frentes frias.
*Foi
uma revelação interessante. Descobrimos também
que os super-raios acontecem em formações em que
há nuvens muito altas — conta o pesquisador. —
Trata-se de um dos primeiros trabalhos no mundo a fazer esse tipo
de associação meteorológica. Graças
a isso, podemos agora voltar ao passado e rever casos, não
estudados, em que, possivelmente, ocorreram super-raios.
Uma
das próximas seqüências do trabalho, revela
Osmar Pinto Júnior, é tentar descobrir o que faz
com que os super-raios se concentrem naquela região.
*Nesse
sentido, ainda estamos no terreno da hipóteses —
revela. — Mas uma das mais interessantes hipóteses
que temos liga os super-raios às queimadas de cana-de-açúcar.
Aquela região tem uma grande incidência de queimadas.
Será que toda aquela fumaça e ar quente lançados
na atmosfera fazem com que as tempestades fiquem mais intensas?
Essa é uma das questões que temos que resolver daqui
para a frente.